2.11.2015

Yeti: o assassino vive. Mas o Discovery Channel entra em extinção.

Ops, não fui eu que criei essa imagem...

Essa semana, assisti ao programa Russian Yeti: The Killer Lives, traduzido por aqui como Morte na Neve, sobre as mortes misteriosas e brutais de nove estudantes russos nos Montes Urais em 1959. Aparentemente, nenhum animal conhecido faria o que foi feito com aqueles jovens, que há dias subiam a trilha das montanhas com a intenção de esquiar. Junte isso a moldes em gesso de pegadas de abomináveis homens das neves, algumas filmagens “estranhas” e você imagina do que se trata o documentário.

Pausa para uma (não tão) rápida contextualização. Em 2013, o Animal Planet – um canal do grupo Discovery, passou um documentário com duas horas de duração sobre provas de que sereias existiam. Exibiu-se esqueletos, filmagens dos animais vivos, cientistas ratificando suas novíssimas e irrefutáveis descobertas. Foi uma comoção, certamente! Apesar de não se tratar de belos seres metade mulher, metade peixe, com cabelos sedosos e um canto tão hipnotizador que levava pescadores para a morte, eram humanoides nunca vistos antes. A audiência subiu, as referências na internet efervesceram. E a verdade veio à tona, o que irritou alguns telespectadores que – com razão, sentiram-se fazendo papel de bobo. Tirando toda a responsabilidade científica do programa, ou pelo menos com essa intenção, apareceu no início ou no final do show o aviso de que tudo não passava de ficção. Mas esse aviso foi bem mais rápido que as inserções do Jequiti no SBT, então muita gente simplesmente não viu. Os esqueletos e as filmagens eram um engodo (imagine, os cadáveres eram de papel machê). Os cientistas? Atores. Ainda em 2013, o Discovery Channel repetiu a ca, digo, jogada, com um programa também de duas horas de duração sobre um tubarão pré-histórico considerado extinto e que, aparentemente, não estava tão no passado assim: Megalodon (confesso que estava ciente sobre o “documentário” das sereias, mas não tinha ouvido falar do tubarão). Mais crível do que sereias, o programa também causou picos de audiência. E continuou irritando os fãs do canal, outrora tão preocupado com fatos científicos, quando veio à tona de que tudo também não passava de uma “suposição fictícia para entretenimento” (segundo definição dos produtores).

Um ex-fã do canal bastante nervoso sobre o programa Megalodon

Eu, na minha poltrona, já tinha me esquecido há tempos do programa sobre as sereias e, perdão pelo trocadilho, confesso que fui atraída por esse canto tanto quanto os telespectadores dos outros shows quando o Discovery começou a discorrer sobre mortes brutais sem explicação e pés-grandes. Não peguei o início do show, mas dizem pela internet que aparece a legenda de que alguns fatos são ficção. Tudo bem, quais? Os nove corpos e algumas rasas conclusões de legistas são reais (infelizmente os jovens morreram de verdade, das formas citadas). Posso concluir que tudo além disso é ficção? Aparentemente, sim.


"Aliens. I mean, yetis"

Existem inúmeros relatos de pessoas que viram o abominável homem das neves, ou pé-grande. Existem moldes em gesso de pegadas. Existem vídeos que flagraram seres “estranhos e grandes” na neve – todos, infelizmente, com qualidade muito ruim. E tudo isso é mostrado no show que, coincidentemente, também tem duas horas de duração. Tem gente que leva isso tudo muito a sério: ets, Nessie, Chupacabra, fantasmas e tantos outros seres vivíssimos em nosso imaginário. Eu acho divertido. Devemos sim, considerar essas pesquisas, mas só vou acreditar quando me mostrarem provas.

Inocentemente, comecei a ver o show porque parecia que apresentariam provas. No fundo, porém, eu sabia que se a existência do pé-grande fosse comprovada, muito provavelmente estaria estampada na primeira página de um grande jornal diário e não em um programa que demorou pelo menos alguns meses para ser produzido – e, teoricamente, produzido a partir de informações secretas que vazaram. Mas o nosso cérebro é ingênuo e se deixa levar por coisas poucas, como um efeito sonoro bem colocado e uma reconstituição bem dirigida. Até a metade do programa, mais ou menos, eles estavam me engalobando muito bem, colocando até o exército russo no meio de tudo: os soldados teriam encontrado os corpos antes das equipes de resgate.

Aí a coisa começa a descer em velocidade de dobra. Enquanto eles estavam apenas analisando os dados, entrevistando pessoas e juntando B com A, dava para levar aqueles pesquisadores como pessoas genuinamente interessadas no yeti. De um documentário com clima de suspense policial, porém, o programa descamba para um terror que de tão trash não assusta ninguém e acaba virando chacota.


Faltando vinte minutos para terminar o show, os dois “investigadores” resolvem ir, sozinhos, para o lugar onde os corpos foram encontrados. Lá eles encontram pegadas de pés-grandes que levam até uma caverna. Se você gosta de programas assim, já sabe o que cientistas sérios fariam: armariam câmeras com infravermelho, acionadas por movimento, ao redor da entrada da caverna. Mas nossos corajosos protagonistas resolvem acampar lá dentro, sozinhos, sem equipe de filmagem ou qualquer coisa que pudesse garantir a integridade deles caso uma besta de quase três metros de altura, que havia matado nove adultos de forma brutal, aparecesse. E claro que o canto do yeti ecoa por toda a caverna. Pena eles estarem há mais de 15 anos atrasados ao usarem a câmera de mão dentro de uma barraca, tal e qual o fantástico Bruxa de Blair, de 1999. Respirando de forma ofegante, o pesquisador sai da barraca para flagrar o monstro e deixa a moça que o acompanhava sozinha. O canto ecoa cada vez mais alto. Nosso herói encontra o que parece ser o ninho do pé-grande. Desrespeitando o intelecto do público, que gosta de ciência, ele não faz nada, não recolhe nenhum tipo de material que pudesse conter pêlos com desconhecidos códigos genéticos. Em vez disso, ele, que não conseguiu filmar o monstro nem de relance, volta para a barraca onde a moça está... viva, inteira. Ela também não viu nada.

Dessa vez, sem meleca escorrendo.

Não, eles realmente não se interessaram em voltar à caverna com uma equipe decente para analisar melhor o tal ninho. Já na segurança dos escritórios, concluem que os pés-grandes são seres que só atacam quando se sentem ameaçados. Então, os jovens provavelmente e de alguma forma, ameaçaram o gigante das neves. Eles voltam ao rolo de filme encontrado com os estudantes e que possui, inclusive, alguns registros pouco antes da morte do grupo. A última foto é um fundo preto com três pontos de luz branca. Quem nunca queimou a última foto abrindo a máquina antes de rebobinar o filme? Quem tem menos de 25 anos, eu acho. Mas, de acordo com o programa, as luzes eram mísseis. O governo russo estava testando mísseis naquela noite, naquele local, ignorando ser uma trilha de esqui. Que exército distraído. As explosões assustaram os jovens, que fugiram para a floresta, assustando ainda mais o yeti, que já os seguia há alguns dias e o pandemônio se instalou, terminando em algumas mutilações mortais para os estudantes.

Foto tirada pelo grupo, uma das últimas. O show não mostra quais eram as últimas
(talvez por serem registros de um grupo alegre demais para quem estava sendo perseguido).
A foto é genuína, mas ela mostra um pé-grande ou um dos rapazes usando um grosso casaco para esqui?

Em uma sequência, para dizer no mínimo, estúpida, os protagonistas decidem recriar as condições daquela noite no mesmo lugar em que os jovens morreram. Então eles sobem a trilha acompanhados apenas da equipe de filmagem e de um caçador, plantam dezenas de sinalizadores e detonam tudo, para irritar bastante o bicho. Mais canto de pé-grande, mais correria com câmera de mão, mais de toda a falta absurda de qualquer critério científico (some a isso um veado morto com sangue fresco escorrendo - mas para quê analisar o bicho, não é mesmo?). E, sem uma prova sequer, sem uma pista – por menor que fosse, depois de tantas oportunidades incrivelmente fantasiosas, o show termina. E não avisa que alguma coisa ali pode ser ficção.


Logo depois, um programa sobre os Illuminati. Perco o interesse. Já não consigo mais discernir o que é fato do que é delírio no canal. Vou ver Family Guy e sinto que passo o tempo de uma forma mais produtiva. O Discovery Channel tem que entender que ele não é Hollywood. Que documentário científico ou político é diferente de filme para entretenimento. Que quem sintoniza o Discovery não quer ver, pelo menos não naquele momento, HBO. Se o próximo documentário incrivelmente revelador do Discovery Channel for sobre anacondas, vá (re)ver o filme com a Jennifer Lopez que você ganha mais.

Estamos de olho nessa zoeira aí.

*PS: O Morte na Neve é, na verdade, da metade de 2014. Fui enganada, portanto, duas vezes, pensando estar vendo algo relativamente novo.

4.23.2014

Histórias e Memórias Antiguidades

Seria verdade que os objetos carregam consigo tudo aquilo que testemunham? E se encontrássemos nosso próprio passado à venda?



Ela entrou apreensiva, ofegante, olhando para todos os lados, quase como se tivesse sido jogada ali dentro. A porta fora aberta de forma brusca, batendo forte demais no sininho que anuncia ao proprietário da loja a presença de alguém. Por vários segundos, um tempo que ela considerou infinito, o sino tocou vigorosamente e cada badalo agudo fazia sua ansiedade triplicar.


Acostumado à clientela bastante esparsa e peculiar, o senhor ao balcão – grisalho e com o peso de quase toda uma vida já sobre a coluna, levanta os olhos do livro capa dura e a encara por sobre os óculos de aros grossos. “Só olhando”, ela responde rápida e rispidamente, evitando qualquer diálogo. Ele volta a ler.

Apesar de inquieta, ela passa pelos corredores de estantes bem devagar, pé ante pé. As mãos suam. Olha para baixo e lança espiadelas rápidas para os produtos. Quer e não quer achar seja lá o que veio buscar. Tantas coisas empilhadas, empoeiradas, esquecidas...

Um dos poucos raios de luz do fim do dia que entram pelas frestas das janelas reflete no metal e chama a atenção da mulher. Ela olha para a aliança e sente seu coração descompassar. Toca o anel com a ponta dos dedos, como se ele fosse uma escultura de cinzas pronta para se desmanchar. Mas o metal é resistente e, como dizem, o diamante nele encravado é eterno. O senhor atrás do balcão levanta os olhos novamente e volta para o livro. A mulher pega a joia e em seu lado interno lê: “Serás sempre minha. Laura e Antônio”. Ela volta a procurar na estante, mas o par não está ali. Suspira longamente e coloca a aliança no dedo anelar. Assusta-se. A mão enrugada e manchada, o esmalte descascado... o conjunto lhe parece feio, inapropriado. Apesar de estar impecavelmente polido, o anel não brilha. Não mais.

A mulher fecha os olhos e tenta respirar o ar pesado. As costelas parecem comprimir seus órgãos, os pulmões doem com o mínimo de ar. Se antes seu coração acelerara, agora bate tão discretamente que poderia parar e não se notaria. O oxigênio se esvai, a cabeça roda e a coloca novamente na casa dos pais, 40 anos atrás.

Usando um vestido azul claro, Laura atravessa a casa correndo, com os cabelos castanhos soltos batendo no rosto. Abre a porta e também um largo sorriso. “Antônio!”. Pega o rapaz pela mão e o leva até a sala de jantar, onde a família dela aguardava servirem o almoço. Seus pais também sorriem para o moço, que já frequenta a residência há mais de ano. Ao final da refeição e de uma conversa animada, Antônio pede para conversar a sós com os anfitriões. Laura se levanta educadamente e fecha a porta, pondo-se, claro, à espreita, ouvido colado na fechadura. Mas Antônio fala baixo e Laura logo desiste, indo para o seu quarto.

Lá ela começa a folhear o seu diário pessoal que concentra, desde aquele maravilhoso dia de janeiro, todos os possíveis e imaginários detalhes sobre Antônio. Tudo havia começado na quermesse, onde Laura estava com as amigas e as primas. Um garotinho saiu do meio de algumas barracas de brincadeiras com um urso cor-de-rosa nos braços. “Mandaram te dar” - e saiu correndo. Ela olhou ao redor, procurou, encarou discretamente cada garoto da sua idade – até uns mais velhos e mesmo uns mais novos e não teve pista alguma sobre o pretendente. Acabou dando o urso para uma amiga, pois seu pai pediria explicações sobre o presente e nunca acreditaria nela. No diário, colou um desenho parecido com o brinquedo ao lado da anotação: “Dia muito especial. Saudades do Adalberto, o urso que mora na casa da Elga”.

Passado um tempo, ao voltar do intervalo no colégio, Laura abriu a carteira para pegar seus livros e deparou-se com uma rosa branca. Fechou a carteira rápido. Será que alguém havia visto aquilo? Seria alvo de chacotas o ano inteiro! E se a professora encontrasse? Poderia até dar castigo. E se ela estivesse imaginando coisas? Abriu novamente a carteira, só um pouquinho. A rosa continuava lá, acompanhada de um bilhete: “Não havia nada tão lindo quanto você, foi o mais perto que consegui chegar”. A pétala da rosa branca foi eternizada, seca, no diário. Na página, onde Laura havia também colado o bilhete, escreveu: “Não prestei atenção à aula hoje”.

Seguiram-se semanas de suspense, Laura sempre sendo surpreendida por pequenas ações que a deixavam cada dia mais apaixonada por alguém que ela nem conhecia. E se ele fosse feio? E se fosse pobre? Seus pais a deixariam namorar alguém assim? E se fosse muito mais velho, da idade do seu pai? E se fosse uma das meninas brincando com ela e ela caía na enganação como um patinho? “Vais me conhecer antes do que imaginas”, dizia o último bilhete encontrado. E a promessa foi cumprida no final daquela semana, na missa de domingo. Antônio subiu ao púlpito para fazer a 1ª Leitura. Não foi impressão, Laura teve certeza de que ele só tinha olhos para ela e, estando entre seu pai e sua mãe, encolheu os ombros e ficou vermelha, muito vermelha. Sua mãe até perguntou se ela se sentia bem, passou a mão pelo rosto da filha conferindo se não estava febril. Quando a atenção de sua mãe se voltou para o padre, Laura riu da preocupação boba. Ela também viu Antônio rindo de sua timidez. No diário de Laura, lia-se “Na missa, fui aos céus”.

Antônio, quem diria. Ninguém diria. Nem Laura, nem as amigas. Era um rapaz pouco mais velho, excelente aluno, trabalhador, de boa família e educado – bem quisto por todos. E lindo! Tinha grandes olhos castanhos – Laura e metade das meninas da cidade sonhavam com eles. O namoro engatou, causou inveja nas amigas e nas primas e transformou-se em algo mais sério naquele almoço, quando Antônio, a portas fechadas, pediu aos pais de Laura a mão da garota – e, claro, eles aceitaram. Ora, era Antônio, por que haveriam de negar? Naquela noite Laura escreveu em seu diário “Finalmente, Sra. Duarte!” e desenhou muitos corações. Seis meses de noivado se passaram e as famílias já haviam comprado quase tudo para o grande dia, inclusive as alianças com os nomes gravados. Se em todo esse tempo houve algum indício do que aconteceria, Laura, muito apaixonada, não percebeu. A alguns dias do casamento, Antônio sumiu. Sua família dizia sempre desconversando que ele tinha ido estudar medicina no exterior. Mas o que se ouve pelas ruas até hoje é que ele havia fugido com algum rapaz da cidade vizinha. Ou que havia matado alguém, ocultado o corpo e precisava se esconder do castigo. Ou ainda que havia se engraçado com a contorcionista do circo, que estava pela cidade na semana do desaparecimento. Ou que, bom, eram muitas versões para o ocorrido.

A única coisa que todos têm certeza é que Laura caiu em desgosto. Não viu suas amigas e primas mais, a não ser esporadicamente, durante as missas – quando saía às ruas vestia negro. Sua família, em respeito à sua dor, não falou mais em casamento – nunca mais. Laura foi para a cidade, onde estudou e trabalhou muito. Voltou para o interior para cuidar dos pais e aguentou, por muitos anos, fofocas de quem se lembrava da história – todos se lembravam da história. Após a morte dos pais voltou, sozinha, para a cidade e até hoje passa os dias a ver televisão, vivendo a vida de pessoas que não existem. Uma tarde, ao sair para comprar comida, ela viu uma loja na qual nunca havia reparado. Reparava em poucas coisas – andava sempre cabisbaixa e não se assustaria se a cidade inteira mudasse ao seu redor sem que ela notasse. A loja parecia velha demais, abafada demais para oferecer algo agradável para qualquer pessoa. Mesmo assim, quis entrar. Sentiu um ímpeto irracional, incontrolável – ela começou a tremer, a se descontrolar sem saber a razão. Levantou mais os olhos e leu a inscrição “Histórias e Memórias Antiguidades”. Colocou a mão suada sobre a maçaneta e forçou-a para baixo.

E ali estava ela, voltando a si, usando a mesma aliança que deveria ter usado por pelo menos 40 anos. Mas agora o anel pesa muito. “Serás sempre minha” - o prometido acabou se tornando verdade, mesmo que não da forma sonhada por ela. Nunca havia sido de mais ninguém. A mulher tira a aliança lentamente e num ato igualmente longo estica o braço e recoloca a joia na estante. A memória, ainda em carne viva, latejava e sangrava muito, sempre. Ela não precisava de nada que a ajudasse a lembrar, muito pelo contrário – queria algo que a fizesse esquecer, talvez uma dose de uísque e cicuta. Volta com passos vagarosos, porém não mais apreensivos e sim arrastados, como se não fosse importante para os pés onde iam, por que iam. “Obrigada, não vou levar nada, não”, diz ao senhor que a observava sem ser notado há um bom tempo. A mulher enxuga uma lágrima que hoje chegou antes do pôr do sol e sai da loja, fazendo soar novamente o sininho, dessa vez de forma débil: não chega a tocar duas vezes e se cala.

3.02.2013

Esses pais especiais de crianças idem


O pai de Carly. Herói de sua filha, agora herói de muitos outros pais.


Um garotinho passa correndo pela cozinha, onde a mãe prepara o jantar. Ele tropeça e cai. Assustado, chora e chama pela mãe, que continua, aparentemente, impassível do outro lado do cômodo. Nada grave aconteceu ao menino e ela ignora os gritos de socorro enquanto segura os soluços do próprio choro. E assim continua até que a criança se distrai com o barulho de um grilo e resolve ir atrás do bichinho. Ela sabe que seu filho precisará muito mais dele mesmo do que de qualquer outra pessoa. Ela sabe que não poderá socorrê-lo para sempre. Ela sabe que ninguém no mundo sentirá pena do menino que está perdendo a visão.

Essa cena fortíssima é do filme biográfico Ray e ficou na minha cabeça por um bom tempo. A atriz conseguiu passar toda a angústia de ser mãe, amar incondicionalmente e, ainda assim - ou talvez por isso, ser capaz de uma reação dessas. Eu, que não tenho filhos, realmente acreditei que essa lição é a mais difícil, pois atropela nossos sentimentos de proteção. É uma luta interna. Porém, quando se tem um filho com algum tipo de deficiência, a luta dos pais não representa nada perto da dos filhos. A única certeza que esses pais têm é que seus filhos, mais do que crianças plenamente capazes, travarão batalhas diárias, internas e externas, até os seus últimos dias.

Recentemente, outro casal fez a mesma coisa pela sua filha. Carly Fleishmann foi diagnosticada com autismo aos dois anos. Os médicos diziam que ela teria um desenvolvimento mental comparável ao de uma criança de 6 anos. Um dia, já bem mais velha, Carly sentou-se ao computador e digitou “hurt” e “help”, duas palavras curtas que dizem muito. O resto da história pode ser conferido no link abaixo, mas o que mais me impressionou foi a obstinação dos pais em fazer Carly digitar o que queria, sempre que queria algo. Posso imaginar as cenas de Carly ficando nervosa e se descontrolando, na tentativa hercúlea de digitar seus desejos. Posso ver a angústia de seus pais que, já conscientes do que ela queria, fingiam não entender e esperavam pela iniciativa da filha - todos os dias, por anos a fio.

O resultado é milagroso: pela primeira vez, um autista nos conta como é seu mundo. Carly hoje mantém um blog onde responde dúvidas de pais de crianças autistas e abriu um horizonte completamente novo no cuidado dessas pessoas. Carly é a tradutora oficial do autismo e mostrou o quanto somos ignorantes sobre o assunto.

Antes disso, porém, os pais de Carly foram duros com ela. Exigiriam demais. Sofreram e fizeram sofrer. Superaram um obstáculo interno quase intransponível e fizeram com que a filha superasse vários outros que aparentemente também eram impossíveis. E, como a mãe de Ray Charles, indo contra todas as regras do coração, eles deram a maior prova de amor que poderiam dar a um filho: independência.

Leia mais sobre a história de Carly aqui.

10.02.2012

Eu NÃO sou você amanhã



Os mais novinhos não vão se lembrar da propaganda da Orloff de 1985 em que um sujeito acabado, na maior ressaca, senta-se na frente de outro, bonitão, prestes a tomar um drinque, e avisa: “eu sou você amanhã”. A frase caiu no gosto popular e foi – ainda é – usada para diversas situações.

Parafraseando Vanucci, o amanhã é logo ali e dificilmente você acordará pensando que está muito diferente do que é hoje. Pelo contrário, é bem fácil, por exemplo, calcular os efeitos de umas doses a mais e imaginar-se no dia seguinte com aquelas bolsas enormes sob os olhos, uma postura digna de zumbi e uma dor de cabeça das que cegam. Mas quando a coisa passa do amanhã e vira uma, duas semanas, fica tudo mais difícil de calcular. E quanto mais longe vamos, mais oportunidades se abrem, mais imprevistos cabem e o amanhã – aquele lá longe – se torna um ente desconhecido. Ainda assim, você teima em imaginar que será você, desse jeitinho, amanhã, depois, e depois, na semana seguinte, em vinte anos. Somos tão inaptos na arte de nos imaginar que estamos lá, com 50 anos, desfilando com o mesmo corpitcho atual de 20, 30. Fora que o nosso cérebro insiste na tal da esperança e não só estamos joviais no futuro como estamos saudáveis, felizes e ricos. Ah, se ele fosse infalível e sempre acertasse ao menos uma dessas quatro...

Depois de uma bordoada da vida, daquelas que fazem você pensar em largar casa, emprego, cachorro e periquito para trás, não há um ser pensante que não imagina onde estaria se tivesse feito tudo diferente. Ou se pelo menos tivesse tomado qualquer outra pequena decisão. Todos sabemos que diferenças de frações de graus numa navegação levam você a pontos milhares de quilômetros distantes um do outro no globo e a sensação que fica é que não temos controle do leme, muito menos um mapa ou uma bússola. Essa outra representação do “efeito borboleta” ficou popular com o filme homônimo e levou muita gente a refletir sobre a questão. Na época achei o filme hors concours. Fiquei impressionada com o enredo, espantada com a nossa falta de consciência sobre a coisa toda e assustada com as inúmeras possibilidades que, combinadas, abrem infinitos destinos bem diferentes na nossa vida. Mas depois percebi que o filme Efeito Borboleta e a propaganda da Orloff têm algo em comum: o personagem é o personagem amanhã. O mesmo. Talvez com ressaca, mais rico ou deficiente, mas sua onisciência tem como custo a mesmice. Não importa o que o personagem faça ou deixe de fazer, ele convive com as mesmas pessoas e se torna a mesma pessoa. Não mudou, apesar de ter mudado tudo ao seu redor. Não percebi como isso limitou outras variadas combinações de possibilidades.

Até ontem, quando vi Looper: Assassinos do Futuro. À primeira vista um bom pipoca com algumas falhas de roteiro, a história do assassino por encomenda que encontra seu eu futuro traz uma nova perspectiva para o assunto. Vai além do, a meu ver excelente, Efeito Borboleta mudando apenas um detalhe. O filme é mais plausível, mesmo tendo vários elementos da ficção: Joe, o protagonista, não é ele amanhã. É uma pessoa com outras experiências, que por consequência tem outros valores, que por consequência tem diferentes prioridades. E o choque que se desenvolve entre o(s) protagonista(s) nos faz pensar sobre alguns possíveis choques que temos com nosso eu mais novo, que nada mais tem a ver conosco, e o que podemos fazer pelo nosso eu mais velho, que não chegaremos a conhecer porque não perceberemos nossa transformação. Se é que podemos - ou queremos - fazer alguma coisa por alguém com quem (ainda) não nos identificamos. Por essa sacada, principalmente, Looper se torna um grande filme, digno de boas reflexões quando a pancadaria termina.

5.23.2012

Personalidade - JANUSZ KORCZAK


Deparei-me com a história desse homem no livro Cultura da Agressividade, de Jacob Pinheiro Goldberg (Editora Landy, 2004) e me lembrei dos tempos em  que o filme Patch Adams – O Amor é Contagioso fez um estrondoso sucesso e como um ídolo assim, de carne e osso, sempre nos acalenta. Por isso, resolvi contá-la também.



Henryk Goldszmit é um homem cercado de lendas. E por mais românticas e idealizadoras que elas sejam, concordo com Rafael F. Scharf (ver Fontes) quando diz que esses enfeites são desnecessários – apesar de não ter sido possível, pelas referências, identificá-los claramente. Nascido em 1878 ou 1879, em uma rica família judia da Polônia, Henryk Goldszmit é um jovem instruído, com pai advogado e avô médico. Desde o início da sua vida acadêmica mostrava certa inquietude, sendo contra o método da disciplina escolar e desenvolvendo, entre os colegas de classe, grupos de discussão. Foi o sonho de se tornar escritor que o levou a adotar o pseudônimo Janusz Korczak, herói de um romance pouco conhecido de Kra Szewski, para participar de um concurso literário. Por insistência do pai, porém, ingressou na faculdade de Medicina.

Antes de terminar os estudos, perde o pai, vítima de uma doença mental que se arrastou por anos e consumiu as economias da família. Seu curso foi concluído com muito esforço: Korczak dava aulas particulares para ajudar sua mãe e irmã. Formado em pediatria, sua situação melhora um pouco e o comichão de sua alma inquieta reaparece: aos 34 anos, abandona o posto de médico do exército e passa a se dedicar, filantropicamente, a um orfanato para as crianças pobres judias da Varsóvia, mantido exclusivamente com doações.

Um fato curioso sobre seu orfanato era o modo como lidava com e educava as crianças. Tendo pesquisado e visitado vários orfanatos da Suíça, Itália, Holanda e Dinamarca, ele se decepcionou com essas instituições, comparando-as a prisões e resolveu fundar a sua própria. Contrário ao “adultismo”, forma de tratar as crianças como pequenos adultos, Korczak equilibrava de maneira admirável o exercício da liberdade e o cumprimento dos deveres de seus pupilos. Conhecido como “República das Crianças”, seu orfanato tinha parlamento e tribunal próprios, onde inclusive os mestres, além dos alunos, poderiam ser arguidos. O jornal também era produzido por todos e dizem que em 30 anos Korczak nunca deixou de contribuir ao menos com um artigo semanal. Paralelo a este trabalho, concluiu muitas obras sobre o assunto, que são referência até hoje nos modelos educacionais.

Entre 1919 e 1933 o sol parecia querer brilhar em seu esplendor na sociedade: com o fim da Primeira Grande Guerra várias experiências inovadoras no âmbito educacional eram debatidas. As pessoas acreditavam que uma mudança no ensino era necessária para uma possível igualdade social. Na Alemanha surge a Escola Internacional, com princípios semelhantes aos de Korczak. Mas, por problemas com as autoridades alemãs, a escola é levada para a Áustria e finalmente para a Inglaterra, onde funciona até hoje com o nome de Summerhill. O antissemitismo crescente, fruto da crise econômica de 1929, porém, traz o eclipse à Europa.

O cerco aos judeus começava a tomar formas e muitos migraram para Israel – inclusive Korczak. Impressionado com o funcionamento dos kibutzim, ele pensa em transferir seu orfanato para este país. Mas a II Guerra Mundial eclode e impede a realização de seus planos. Após dois atentados, seu orfanato perde o comitê que o sustentava e a Gestapo o transfere para um gueto na Varsóvia. Korczak tenta o impossível para conseguir medicação e alimento para as crianças. Estavam todos expostos à fome, frio e a doenças. Mesmo assim, vez ou outra mais uma criança era resgatada de uma situação ainda pior e levada ao orfanato.

Korczak estava ciente do terror que só aumentava. E aqui, especialmente, as histórias sobre esse herói transbordam a realidade. Uns dizem que no fatídico dia em que suas 200 crianças foram levadas para a morte, o médico carregou dois pequenos no colo. Outros afirmam que foi inventada uma excursão para algum lugar feliz. Suspeita-se (o que eu não duvidaria) que, pelo seu prestígio como educador, poderia ter escapado desse destino. O que se tem certeza é que  Korczak, junto com 12 funcionários, caminhou até Treblinka com suas crianças e lá encerrou sua jornada.


Jerusalém - Memorial de Yad Vashem


"Aqueles que amam Korczak e que crêem na força de seu exemplo sentiam que era necessário encontrar um modo mais concreto de imortalizar sua figura e suas idéias. Assim souberam com alegria que uma obra grandiosa seria realizada na Polônia com a aprovação e a sustentação financeira do governo: um Instituto Científico de Proteção e Educação Janusz Korczak. Foi-lhe destinado um espaço deslumbrante de uma centena de hectares lá onde Vístula – o Vístula bem-amado de Korczak – contorna a localidade de Lomianski. O projeto já está pronto. É um empreendimento magnífico que levará seu nome. Não uma estátua de bronze ou de mármore, mas um centro cheio de vida, para onde virão crianças de perto e de longe, onde elas crescerão, se instruirão, se divertirão juntas, próximas à natureza, numa atmosfera de compreensão e boa vontade para com todos. Os educadores e os professores aí se reunirão para aprender observar, para participar das experiências de trabalho com as crianças e os adolescentes, para aproximar-se da realização dos sonhos de Korczak, mesmo que isso seja um passo apenas para um mundo no qual as crianças possam viver felizes."

Sobre a citação, não achei mais referências. Mas fico torcendo para que seja verdade.

Fontes:
http://pt.wikipedia.org/wiki/Janusz_Korczak
http://www.rubemalves.com.br/comoamarumacrianca.htm
http://www.infoescola.com/pedagogia/a-pedagogia-de-janusz-korczak/
http://academiareumatol.com.br/janusz/biografia.html