Minha memória nunca foi uma boa parceira. Portanto, essa lembrança carece de registros mais detalhados como, por exemplo, em que série eu estava ou em qual colégio estudava. Não me lembro nem do nome da professora. Mas daquela lição nunca me esqueci. Estava em uma aula de Português e estudávamos interpretação de textos. Amante da escrita e da comunicação que sempre fui, adorava destrinchar os trechos dúbios, os cacófatos, as concordâncias verbo-nominais. Porém, nunca entendi a interpretação de textos aplicada da forma mais comum nas escolas: salvo os textos descritivos dos jornais e revistas, torna-se pedante querer avaliar, de forma simplista, a resposta de um aluno sobre a interpretação de uma poesia. Um dicionário online traz como definição de poesia “a arte de escrever versos”. Se é uma arte, não merece ser encarcerada em apenas uma interpretação e, se é assim considerada, não pode ter uma reação avaliada como "certa ou errada". Teriam os observadores de Guernica os mesmos sentimentos despertados? Onde está a arte se isso acontece? Mas acalmemos os ânimos. É pela diversidade das reações que a arte, inclusive a poesia, tem um lugar muito cativo na humanidade desde os nossos primeiros passos.
Então, voltando à aula e ao livro - que tentava ser moderninho, tínhamos uma música para interpretar. “Somos quem podemos ser”, dos Engenheiros do Hawaii. Vou colocar a letra inteira aqui, porque tão errado quanto cobrar uma única interpretação de uma poesia é apresentar somente uma parte dela:
Sem compreender a nota, fui conversar com a professora. Ela disse sem titubear que quem tinha culpa era “quem ocupa o trono, quem oculta o crime, quem duvida da vida e quem evita a dúvida”. Perguntei ainda se isso não refletia todo e qualquer ser humano e ela disse que não. Para terminar a discussão, marcou a parte do texto correspondente à resposta em vermelho.
Essa decepção não foi suficiente para ceifar meu amor pela comunicação. Cresci com a pulga atrás da orelha e tenho orgulho em dizer que nunca concordei com a tal professora. Lendo a música hoje, continuo com a convicção de que todos nós temos culpa. Coincidentemente, procurando pela internet, achei uma outra interpretação de texto, da mesma canção, dizendo que a culpa pertence aos aparelhos ideológicos do Estado, que convencem a população de que está tudo bem. Porém, na minha opinião, ao acreditarmos em quem quer que seja sem questionar, evitamos a dúvida. E adquirimos a culpa.
Professora, não cobre interpretação de poesia em sala de aula, a não ser que você tenha tempo de estudar cada resposta com carinho e ver se elas são plausíveis, mesmo não sendo aquela que o livro dos professores indica. A magia da poesia, o sabor de discuti-la tem raízes fortes na Filosofia que, com muito mais modéstia, reconhece não ser possível encerrar uma discussão dessas com uma resposta final. Poesia é feita de coração para coração e a resposta que você desejava deveria estar em uma aula de beabá, para certificar que os alunos aprenderam a ler - não em uma aula de interpretação de textos do curso médio, que poderia ser infinitamente mais rica, mais informativa e mais formadora - inclusive para a senhora.
Então, voltando à aula e ao livro - que tentava ser moderninho, tínhamos uma música para interpretar. “Somos quem podemos ser”, dos Engenheiros do Hawaii. Vou colocar a letra inteira aqui, porque tão errado quanto cobrar uma única interpretação de uma poesia é apresentar somente uma parte dela:
SOMOS QUEM PODEMOS SER
Um dia me disseram
Que as nuvens não eram de algodão
Um dia me disseram
Que os ventos às vezes erram a direção
E tudo ficou tão claro
Um intervalo na escuridão
Uma estrela de brilho raro
Um disparo para um coração
A vida imita o vídeo
Garotos inventam um novo inglês
Vivendo num país sedento
Um momento de embriaguez
Somos quem podemos ser
Sonhos que podemos ter
Um dia me disseram
Quem eram os donos da situação
Sem querer eles me deram
As chaves que abrem essa prisão
E tudo ficou tão claro
O que era raro ficou comum
Como um dia depois do outro
Como um dia, um dia comum
A vida imita o vídeo
Garotos inventam um novo inglês
Vivendo num país sedento
Um momento de embriaguez
Somos quem podemos ser
Sonhos que podemos ter
Um dia me disseram
Que as nuvens não eram de algodão
Um dia me disseram
Que os ventos às vezes erram a direção
Quem ocupa o trono tem culpa
Quem oculta o crime também
Quem duvida da vida tem culpa
Quem evita a dúvida também tem
Somos quem podemos ser
Sonhos que podemos ter
Depois, em meio a outras, vinha a derradeira pergunta: “De acordo com o texto, quem tem culpa?”. Li a música inteira novamente. Li a parte da culpa mais uma vez. Pensei e escrevi que todos nós temos culpa. Isso porque, no meu entendimento pré-adolescente, começando a querer decifrar a complexidade dessa letra, os governantes ocupavam o trono e o resto, ou seja, a população em geral, ocultava o crime, duvidava da vida ou ainda evitava a dúvida. Levante a mão quem nunca fez uma das três coisas. Quem já foi conivente com algo errado - principalmente nas eleições, quem já teve medo do futuro, quem já deixou de se perguntar se era realmente feliz, se estava realmente satisfeito? “Todos nós”, escrevi. E ganhei um zero.
Sem compreender a nota, fui conversar com a professora. Ela disse sem titubear que quem tinha culpa era “quem ocupa o trono, quem oculta o crime, quem duvida da vida e quem evita a dúvida”. Perguntei ainda se isso não refletia todo e qualquer ser humano e ela disse que não. Para terminar a discussão, marcou a parte do texto correspondente à resposta em vermelho.
Essa decepção não foi suficiente para ceifar meu amor pela comunicação. Cresci com a pulga atrás da orelha e tenho orgulho em dizer que nunca concordei com a tal professora. Lendo a música hoje, continuo com a convicção de que todos nós temos culpa. Coincidentemente, procurando pela internet, achei uma outra interpretação de texto, da mesma canção, dizendo que a culpa pertence aos aparelhos ideológicos do Estado, que convencem a população de que está tudo bem. Porém, na minha opinião, ao acreditarmos em quem quer que seja sem questionar, evitamos a dúvida. E adquirimos a culpa.
Professora, não cobre interpretação de poesia em sala de aula, a não ser que você tenha tempo de estudar cada resposta com carinho e ver se elas são plausíveis, mesmo não sendo aquela que o livro dos professores indica. A magia da poesia, o sabor de discuti-la tem raízes fortes na Filosofia que, com muito mais modéstia, reconhece não ser possível encerrar uma discussão dessas com uma resposta final. Poesia é feita de coração para coração e a resposta que você desejava deveria estar em uma aula de beabá, para certificar que os alunos aprenderam a ler - não em uma aula de interpretação de textos do curso médio, que poderia ser infinitamente mais rica, mais informativa e mais formadora - inclusive para a senhora.
Escola: um lugar que deveria incentivar o diálogo e a curiosidade.








