10.03.2011

Somos quem podemos ser, sonhos que podemos ter

Minha memória nunca foi uma boa parceira. Portanto, essa lembrança carece de registros mais detalhados como, por exemplo, em que série eu estava ou em qual colégio estudava. Não me lembro nem do nome da professora. Mas daquela lição nunca me esqueci. Estava em uma aula de Português e estudávamos interpretação de textos. Amante da escrita e da comunicação que sempre fui, adorava destrinchar os trechos dúbios, os cacófatos, as concordâncias verbo-nominais. Porém, nunca entendi a interpretação de textos aplicada da forma mais comum nas escolas: salvo os textos descritivos dos jornais e revistas, torna-se pedante querer avaliar, de forma simplista, a resposta de um aluno sobre a interpretação de uma poesia. Um dicionário online traz como definição de poesia “a arte de escrever versos”. Se é uma arte, não merece ser encarcerada em apenas uma interpretação e, se é assim considerada, não pode ter uma reação avaliada como "certa ou errada". Teriam os observadores de Guernica os mesmos sentimentos despertados? Onde está a arte se isso acontece? Mas acalmemos os ânimos. É pela diversidade das reações que a arte, inclusive a poesia, tem um lugar muito cativo na humanidade desde os nossos primeiros passos.

Então, voltando à aula e ao livro - que tentava ser moderninho, tínhamos uma música para interpretar. “Somos quem podemos ser”, dos Engenheiros do Hawaii. Vou colocar a letra inteira aqui, porque tão errado quanto cobrar uma única interpretação de uma poesia é apresentar somente uma parte dela:


SOMOS QUEM PODEMOS SER
Um dia me disseram
Que as nuvens não eram de algodão
Um dia me disseram
Que os ventos às vezes erram a direção
E tudo ficou tão claro
Um intervalo na escuridão
Uma estrela de brilho raro
Um disparo para um coração
A vida imita o vídeo
Garotos inventam um novo inglês
Vivendo num país sedento
Um momento de embriaguez
Somos quem podemos ser
Sonhos que podemos ter
Um dia me disseram
Quem eram os donos da situação
Sem querer eles me deram
As chaves que abrem essa prisão
E tudo ficou tão claro
O que era raro ficou comum
Como um dia depois do outro
Como um dia, um dia comum
A vida imita o vídeo
Garotos inventam um novo inglês
Vivendo num país sedento
Um momento de embriaguez
Somos quem podemos ser
Sonhos que podemos ter
Um dia me disseram
Que as nuvens não eram de algodão
Um dia me disseram
Que os ventos às vezes erram a direção
Quem ocupa o trono tem culpa
Quem oculta o crime também
Quem duvida da vida tem culpa
Quem evita a dúvida também tem
Somos quem podemos ser
Sonhos que podemos ter

Depois, em meio a outras, vinha a derradeira pergunta: “De acordo com o texto, quem tem culpa?”. Li a música inteira novamente. Li a parte da culpa mais uma vez. Pensei e escrevi que todos nós temos culpa. Isso porque, no meu entendimento pré-adolescente, começando a querer decifrar a complexidade dessa letra, os governantes ocupavam o trono e o resto, ou seja, a população em geral, ocultava o crime, duvidava da vida ou ainda evitava a dúvida. Levante a mão quem nunca fez uma das três coisas. Quem já foi conivente com algo errado - principalmente nas eleições, quem já teve medo do futuro, quem já deixou de se perguntar se era realmente feliz, se estava realmente satisfeito? “Todos nós”, escrevi. E ganhei um zero.

Sem compreender a nota, fui conversar com a professora. Ela disse sem titubear que quem tinha culpa era “quem ocupa o trono, quem oculta o crime, quem duvida da vida e quem evita a dúvida”. Perguntei ainda se isso não refletia todo e qualquer ser humano e ela disse que não. Para terminar a discussão, marcou a parte do texto correspondente à resposta em vermelho.

Essa decepção não foi suficiente para ceifar meu amor pela comunicação. Cresci com a pulga atrás da orelha e tenho orgulho em dizer que nunca concordei com a tal professora. Lendo a música hoje, continuo com a convicção de que todos nós temos culpa. Coincidentemente, procurando pela internet, achei uma outra interpretação de texto, da mesma canção, dizendo que a culpa pertence aos aparelhos ideológicos do Estado, que convencem a população de que está tudo bem. Porém, na minha opinião, ao acreditarmos em quem quer que seja sem questionar, evitamos a dúvida. E adquirimos a culpa.

Professora, não cobre interpretação de poesia em sala de aula, a não ser que você tenha tempo de estudar cada resposta com carinho e ver se elas são plausíveis, mesmo não sendo aquela que o livro dos professores indica. A magia da poesia, o sabor de discuti-la tem raízes fortes na Filosofia que, com muito mais modéstia, reconhece não ser possível encerrar uma discussão dessas com uma resposta final. Poesia é feita de coração para coração e a resposta que você desejava deveria estar em uma aula de beabá, para certificar que os alunos aprenderam a ler - não em uma aula de interpretação de textos do curso médio, que poderia ser infinitamente mais rica, mais informativa e mais formadora - inclusive para a senhora.

Escola: um lugar que deveria incentivar o diálogo e a curiosidade.

8.20.2011

Um brinde às verdadeiras amizades

Ontem, mais uma vez, precisei dos seus conselhos. Lamentei profundamente que fossem quatro horas da manhã e que a necessidade nem fosse tão urgente assim. Dava para esperar amanhecer. Mas ontem, mais uma vez, precisei de você.

Você publicou na internet uma frase, entre aspas, que fala sobre a amizade verdadeira, aquela que perdura com o tempo, que reconhece as limitações da alma, as imprevisibilidades da vida. E que, mesmo assim, ama. Mesmo que ame apenas o que um dia foi.

Comecei a responder a publicação, mas ficou tão gigante que achei que merecia um texto, apesar de você merecer mais que isso. Um brinde às verdadeiras amizades.

"Dizem que amigos verdadeiros podem passar longos períodos sem se falar e jamais questionar essa amizade. Quando eles se encontram, independente do tempo e da distância, parecem que se viram ontem, e nunca guardam mágoas ou rancor. Entendem que a vida é corrida, mas que você os amará PARA SEMPRE.” Li essa frase ontem e tive certeza de que ela nos descrevia.

Existem amizades que ficam encerradas em um tempo remoto, mas que ainda são verdadeiras. Mesmo que não existam mais no presente, são profundamente respeitadas, como se ainda fossem tão reais quanto noutro momento. O primeiro passo para aceitar as adversidades é entender que muitas vezes as coisas fogem ao nosso controle. Um dia a dia corrido, um namorado que distrai, filhos que tomam nossas rédeas, uma mudança de casa, a constante transformação das personalidades e dos gostos: tudo isso faz parte do crescer. E a gente não pilota a vida, por mais que assim pareça.

Porém, se a amizade tem uma base forte, livre de ciúme e construída sobre o respeito mútuo pela divergência de opiniões que a vida sempre nos apresenta, fica infinitamente mais fácil recuperar um passado congelado. Nem sempre há a necessidade dessa reconstrução: muitas vezes essas amizades realmente pertencem ao passado. Mas isso também não deve ser alvo de julgamentos e só quem sabe qual amizade vai ficar na lembrança e qual vai renascer é o futuro. O importante é abrir espaço e fertilizar o solo para, quando essa chance aparecer, ter a oportunidade de florescer mais uma vez.

(True Friendship, by Kimcats)


Nota:
Eu (e gosto de pensar que ela também) tive a sorte de conviver intensamente alguns poucos anos da minha infância com a Lê. Mudei-me para o estado do Rio com 8 anos, e minha mãe sempre me levava em sua casa nas férias. Não era mais aquela amizade diária e eu realmente a conhecia pouco então, mas certamente tinha amor. Voltei do Rio aos 12 anos, seguimos caminhos diferentes por um (curto) tempo. Ainda não tinha amizade diária, mas sabíamos que estávamos por ali, caso uma ou outra precisasse. Rapidinho, porém, aprendemos a lição da ausência de perenidade das coisas, nos reconhecemos e reconstruímos nosso dia a dia em comum. A amizade tem falhas, tem seus pontos altíssimos e tem os momentos que são morninhos, assim como a vida geralmente é. Mas os sentimentos de confiança, amor e consideração, que perduram por mais de 25 anos, fazem com que eu tenha certeza: sempre foi amizade e sempre será, mesmo que um dia o contato diário se perca novamente (não!). Não acontece com todo mundo, mas acontece. Lê, fico feliz que tenha acontecido conosco. Um grande beijo!

8.05.2011

Até que a morte nos junte


Num divórcio dá para dividir muitas coisas, mas algumas ficam realmente difíceis. Não dá para dividir os filhos à la Salomão, dividir uma coleção, a cama e muito menos dividir o túmulo, Deus me livre! Por isso, Lúcio Mauro se viu com a maior dor de cabeça quando ele e sua ex-mulher já tinham dividido quase tudo, mas ainda arriscavam dividir o mesmo leito de morte.

Essa história não começa aqui, mas sim quando Lúcio Mauro, por motivos não muito nobres, ainda tinha paciência com a mulher, e a mulher fingia ter paciência com ele. Por amor, sabe? Naquele fatídico dia em que a mãe da Regininha, a mulher do Lúcio Mauro, morreu, os dois eram quase pombinhos e os meses de lamentação que se sucederam, ele sempre concordando com “Mamãe era uma mulher nota mil” e outras frases afins, foram suportados com um até certo prazer em ser útil. Também não era o momento para discordar da mulher, que afirmava categoricamente que não queria dar trabalho aos filhos quando morresse. “Ainda bem que eu estava aqui, senão...” era outra frase constantemente ouvida por Lúcio Mauro. O “senão” era que a mãe da Regininha seria enterrada como indigente. Todos sabemos que na vida tudo é caro, inclusive morrer. Foi pensando em não ser enterrada como indigente, em não depender dos filhos para o enterro - duas possibilidades que provavelmente dariam o mesmo resultado - e na possível morte repentina de ambos os progenitores, que Regininha sugeriu, ou melhor, exigiu a compra imediata de um túmulo familiar para ela e o marido. Ser enterrado ao lado da sogra era demais para Lúcio Mauro, mas não tinha argumentos para não querer ao lado da mulher e por isso escolheu, ou melhor, consentiu um jazigo duplo.

A notícia foi dada em casa, durante o jantar, para os filhos: “Agora vocês não precisam se preocupar mais”, anunciou, orgulhosa, a Regininha. Ao digerirem a novidade, tiveram a reação comum aos adolescentes: entreolharam-se, deram de ombros e continuaram as garfadas. Lúcio Mauro, com a boca cheia, sorriu um sorriso de aprovação para a mulher. Depois da refeição, pelo telefone, Regininha contou às amigas, às vizinhas, às primas distantes - ninguém se preocuparia com ela. Regininha não sabia que o tempo verbal mais adequado aqui era o imperfeito do indicativo.

O tempo foi passando e a novidade deu lugar ao marasmo, o luto deu lugar a problemas de menor ordem e, finalmente, o amor deu lugar à mera tolerância. A sugestão veio dos próprios filhos e o divórcio foi amigável até descobrirem que vender um jazigo duplo não era tão fácil quanto o corretor fez parecer. Devolver não era possível. Clientes de cemitério não reclamam e ninguém sabe o protocolo nesses casos. Lúcio Mauro tinha certeza de que empurraria para um primo cinquentão, gótico, todo vidrado em morte. Esqueceu-se porém que o primo não acreditava no amor desde a primeira e última desilusão com uma namoradinha, aos 16. “Se ainda fosse individual...” choramingava ele, o primo. Todos os amigos, dos em comum aos incomuns, são testemunhas da grande cilada que foi a compra e ninguém quer ficar com a batata quente, mesmo a preço para colega. Os garotos também não querem ser enterrados juntos, nem lá e nem em lugar algum: são doadores de órgãos declarados e querem ser cremados. “Coisa de mulherzinha, ficar juntinho”, esnoba o mais novo. Os advogados do divórcio ficaram de saco tão cheio que chegaram a cogitar cada um comprar metade do elefante branco só para nunca mais verem seus respectivos clientes. A ideia não vingou: a mulher de um deles, o recém-casado, quer férias em um cinco estrelas lá em Paris no mês que vem, com direito a roupas e jóias novas.

E assim não termina a história de Regininha e Lúcio Mauro, que perdura até hoje junto com as brigas. Ele a acusando pela brilhante ideia, ela lembrando que ele nunca conseguiu resolver um problema sequer da família. Depois de anos de tentativas frustradas, pensam em desistir da venda, anunciada todo fim de semana no jornal mais popular da cidade, gravando no bendito túmulo: “Aqui jaz nossa paz”.

7.30.2011

Contos da Vovó - II

Então senta que lá vem a história... =)


Como era bem comum naquela época, os irmãos se encontravam pelo mato. Estavam atrás de gabiroba quando se depararam com um ser diferente. Espreitando por detrás de alguns arbustos, estava o tinhoso! Assustadas com a ousadia do cramunhão, as crianças correram para casa e contaram para o pai, aos prantos, que o diabo havia dado as caras, com chifres e tudo, para elas naquela tarde. Meu bisavô, achando muita graça em toda a situação, pediu aos filhos para descreverem o coisa-ruim tal como eles o haviam visto. Então descreveram um cachorro, porém mais alto e magro, com chifres que pareciam galhos ramificados. Meu bisavô ria ainda mais e as crianças não entendiam como ele podia fazer tão pouco do seu desespero. Assim como os pequenos explicaram, em meio ao choro, como o diabo havia aparecido para eles, meu bisavô explicou, em meio a gargalhadas de tirar o fôlego, que eles haviam visto um belo exemplar de veado galheiro.

Perdeu o início dessa história? Então confira aqui:

7.22.2011

Contos da Vovó - I

Anita Malagoli Jardim, nascida em Dores do Indaiá, em 1921. Perdeu o marido, Geraldo Jardim, com 64 anos. Eu tinha seis. Infelizmente, não pude conviver mais tempo com ele, mas algumas de suas histórias e também do meu bisavô, Alfredo Malagoli, foram eternizadas pelos contos de minha avó. Suas memórias, contadas e recontadas, são a minha história também. E aqui divido as mais interessantes. Sem sombra de dúvida são causos que merecem ser compartilhados, passados em um tempo em que o bairro Gutierrez era nada mais que mato e os meninos brincavam na Avenida Francisco Sá - um belo e límpido riacho então. Uma Belo Horizonte que eu não conheci mas que, graças à minha avó, é quase tão familiar para mim quanto o sorriso sapeca que ela solta quando conta as peraltices que aprontou. Uma homenagem a ela e aos meus antepassados, às minhas raízes.



Contam em Dores do Indaiá que certa vez dois amigos iam descendo a estrada a caminho de um baile. Como eram músicos, cada um levava seu instrumento e iam papeando, já bem calibrados para a diversão. Ao passarem em frente ao cemitério, felizes e sociáveis, resolveram convidar os mortos para a festa. E assim fizeram, gritando para as tumbas que, quem quisesse, seguisse-os até a confraternização, que seria boa demais. Não esperavam, porém, que um sujeito, ainda mais bêbado que os dois juntos, dormia aos portões do cemitério, que eram cobertos para abrigar os caixões trazidos madrugada afora. Ao escutar o convite irresistível, levantou-se com alguma dificuldade e disse: “Esperem, que vou com vocês!”. Ao receberem a resposta inesperada, os amigos correram mais que as pernas podiam e chegaram ao baile sem fôlego e sem instrumentos, gritando que os mortos haviam aceitado o convite e estavam a caminho da festa.


7.20.2011

O menino e o lobo


O cenário era uma catedral, encravada no meio de um vale, circundada por uma serra altíssima e uma natureza exuberante. A temperatura... bom, eu não sei quantos graus faziam, mas estava muito frio. Junto a um bando de marmanjos também boquiabertos, alguns da cabeça bem grisalha, eu olhava para o meio do pátio, à entrada da imponente igreja. Ali, um belo exemplar de lobo-guará fazia mais uma de suas visitas, como os lobos religiosamente fazem desde 1982. Mas nada tem a ver com preces, e sim com um manjar servido pontualmente pelo padre. Após esbaldar-se com uma bandeja cheia de ossinhos, o lobo voltou para a escuridão da noite, assim, de fininho, fingindo que não via os flashes das câmeras.

Ainda entorpecida por aquele espetáculo que completava toda a magia da noite e entristecida com a partida do nobre convidado, ouço uma voz infantil cortar o quase silêncio dos sussurros daqueles que ainda tinham esperança de mais um ar da graça do altivo animal: "Não sei por que tanta gente vem de tantos lugares diferentes para ver um bicho que pode ser visto pela internet".

Pausa. Enquanto eu tenho certeza de que muitos de vocês também ficaram incomodados com essas palavras, aparentemente tão verdadeiras para quem as proferiu, volto o relógio um pouco mais naquele dia, só para tentar compartilhar o real impacto dessa constatação dita de forma tão inocente.

No Parque do Caraça, o ar é diferente. Não só o ar puro de um lugar que fica longe das estradas movimentadas da nossa extensa Minas Gerais. O ar, aquele que a gente não vê e também não respira, muda. A serra, o vale, as árvores, as flores e os pássaros envolvem de maneira acolhedora a igreja e as ruínas do que fora um monastério e hoje abrigam uma biblioteca. Nesse legado, deixado por várias gerações de padres – alguns foram alunos, professores e mantenedores, o respeito é obrigatório. A catedral parece ascender, majestosa, do centro de um mundo criado para ser à parte de tudo, uma conexão direta com a divindade. Mesmo não sendo uma pessoa religiosa, acho que eles foram bem-sucedidos. O aviso na portaria não me deixa mentir: “Você está chegando ao Paraíso”. Não interessa qual religião você tenha; aliás, não interessa em nada se você nem religioso é. A vida tem lá seus momentos mágicos e, para mim, muitos acontecem ali. Como quando entrei em uma pequena gruta com uma Nossa Senhora e toquei o terço que pendia de suas mãozinhas em oração. Se eu fosse uma devota – se eu ao menos acreditasse – o choro estaria explicado. Mas as lágrimas vieram não se de onde, muito menos o porquê. Talvez fosse uma sensação, uma certeza de que qualquer coisa ali inspiraria paz, de que tudo estava bem e que assim continuaria. Por falta de tempo, nem me aventurei pelas dezenas de trilhas que o parque oferece, com cachoeiras, riachos, praias e mirantes. Imagino o quanto eu ainda poderia me emocionar.

Ao chegarmos, um pica-pau trabalhava a todo vapor, fazendo ecoar o típico barulho por toda a redondeza. Mais adiante, um jacu ciscava pelo muro – mais tarde fiquei sabendo que ali também o padre deixa comida para os pássaros. Vaidoso, o jacu deixa que os fotógrafos cheguem bem pertinho. Após os momentos de meditação que os vários jardins e seus habitantes permitem, veio a confraternização: uma refeição para os visitantes e hóspedes, em longas mesas. Realmente pareceu-me um milagre provar, no frio que caiu com a noite, uma canjiquinha fumegante, levemente apimentada e o vinho de jabuticaba. O vinho de uva típico da região era outra pedida: tem um sabor mais próximo do da fruta, uma cor mais translúcida e um grau alcoólico bem mais elevado. Depois do jantar, fomos até o platô da catedral para o próximo compromisso: um encontro com o ilustre convidado. Chegamos juntos: nós de dentro do complexo e ele pelas escadarias, do outro lado. Ao aparecer, mais uma vez, para um ritual que já dura tanto tempo, o lobo não ficou surpreso com tantos olhares: ia até a bandeja, abocanhava alguns ossos e voltava para perto das escadas, garantindo sua única rota de fuga. Fez isso por diversas vezes e, apesar da aparente tranquilidade, suas grandes orelhas não paravam quietas: varriam todo o ambiente e deixavam suas longas pernas prontas para uma carreira, caso fosse necessário. Não foi e provavelmente nunca será. Todos faziam um grande esforço para conter o êxtase e mantê-lo ali perto pelo maior tempo possível. Não posso deixar de dizer que aquele animal era bem maior do que pensei e mais elegante do que pude imaginar. É de se espantar que seres tão solitários e tímidos vençam a própria índole e, de quebra, fazem valer o dia de quem os vê: naquela noite éramos pelo menos trinta pessoas.

 Esses momentos ficarão na minha cabeça por muitos anos ainda, com a mesma intensidade. E também sempre me lembrarei das palavras do menino, que foi parte disso tudo, mas acredita que um vídeo no Youtube transmite a mesma emoção de um dia de redescobertas. 

Eu sei por que tanta gente vem de tantos lugares diferentes e fico temerosa que ele nunca saiba. Ao deixarmos o parque, um último bônus: a imagem do lobo – seria o mesmo? – correndo pela estrada, fugindo dos faróis do carro e escondendo-se na mata. Apesar do garotinho - apesar dos garotinhos e garotinhas que possam pensar assim, a magia no parque sempre estará viva para todos aqueles que tem espírito e olhos de criança.

8.11.2006

O fã do Verissimo

ANTES DE LER: Inspirado em uma onda que se espalha pela internet de atribuírem textos, anônimos ou não, a escritores famosos. Na maioria dos casos em que a assinatura apócrifa é de Luis Fernando Verissimo (invariavelmente grafado Luíz), a disparidade dos estilos é bem evidente. Todos os textos citados foram vistos na internet ou recebidos por e-mail como sendo dele. Isso pode acontecer por engano, por oportunismo, mas geralmente a origem da confusão é desconhecida. O importante é não ajudar a disseminar e sempre se certificar da autoria - afinal, quem escreveu de verdade merece reconhecimento. Então vamos à história de um sujeito fã do "Luíz Fernando Verissimo".


Ele estava no aeroporto, comprando uma revista e percebeu uma conversa baixa da moça da banca, dizendo para sua mãe:
- Olha ali mãe... com a mala preta e marrom. Só pode ser ele...
E as duas ficaram a especular sobre aquele senhor. Ele não se segurou e perguntou quem era o ilustre desconhecido.
- É ele... o Luis Fernando Verissimo... olha aqui, ó, na capa desse livro.
- Nossa! Sou super fã desse cara. Vou lá agora mesmo.
- Olha, melhor não... ele é tímido e não deve gostar muito de abordagens. Fica vermelho por qualquer coisinha.
- O que é isso... tenho que falar com ele. Como vou dizer para os meus amigos que encontrei o cara e nem conversei nem nada? Todo mundo sabe que eu sou fanático pelo Verissimo.

E lá foi ele, correndo em direção ao Luis, que olhava para os lados com desconfiança e até se assustou ao ver aquele sujeito engravatado se aproximando depressa, esbaforido.
- Grande Verissimo, sou teu fã, não poderia deixar de cumprimentar você!
- Oi, como vai?
- Muito melhor agora, claro. Rapaz, te digo uma: sei todos os seus textos de cor.
Enquanto ele disse isso, soltou um largo sorriso, todo superior. Verissimo desejava a última chamada para seu vôo. E o fã continuou:
- Sei sim, quer ouvir?

Veríssimo, na sua incapacidade de ser grosso, se viu agarrado, no sentido figurado, claro, por aquele homem que com certeza não batia bem da cabeça. O sujeito limpou a garganta, estufou o peito e começou a recitar o primeiro texto:
- “Ainda pior que a convicção do não e a incerteza do talvez é a desilusão de um quase. É o quase que me incomoda, que me entristece, que me mata trazendo tudo que poderia ter sido e não foi...”
- Desculpe interromper senhor, mas esse texto não é meu.
- Não? Como assim o “Quase” não é seu? Claro que é!
- Acredito que eu me lembraria.
- Eu hein... estranho... mas tudo bem, eu sei todos os outros, minutinho só... Ãhãn... “Pensando bem, em tudo o que a gente vê e vivencia, e ouve... e pensa...não existe uma pessoa certa para nós. Existe uma pessoa que se você for parar para pensar é, na verdade, a pessoa errada. Porque a pessoa certa faz tudo certinho. Chega na hora certa, fala as coisas certas, faz as coisas certas...”
- Senhor, esse texto também não é meu....

Verissimo olha no relógio. Maldita idéia de chegar adiantado. Tenta dar um passo para frente, mas o fã o segura pelo braço:
- Não, peraí! Eu tenho que recitar um texto seu... A Pessoa Errada você não escreveu, né? Pensa bem, hein... Ah, lembrei de outro: “Dar não é fazer amor. Dar é dar. Fazer amor é lindo, é sublime, é encantador, é esplêndido. Mas dar é bom pra cacete...”
- Meu amigo, você me disse que conhecia todos os meus textos de cor e salteado.
- “Dar não é fazer amor” também não é seu? Que absurdo! Não, não... não vai embora ainda não, tem aquele outro...
- É que estou sem tempo no momento, tenho que despachar minha mala antes de embarcar.
Luis Fernando Verissimo olha ao redor e localiza dois guardas. Talvez eles fossem de alguma valia dali a alguns minutos.
- Mas o senhor está com uma mala de mão.
- É, tem razão. Nem tinha percebido. Ela está muito pesada.
- Mas aquele sobre as drogas, você sabe, que fala de pagode, axé...
- Não senhor, não é meu.
- E aquele que você conta que estava no aeroporto e se cagou todo... morri de rir daquele, que situação a sua...
- Situação a minha nada... nunca tive dor de barriga em aeroporto e muito menos escrevi sobre o assunto.
- Sei... Mas teve um que eu ri mesmo, aquele que você fala das famílias farofeiras, no verão...
- Que também não é meu.
- Que isso, gente. Agora aquele do palavrão é seu, né? Concordo totalmente com ele, falar palavrão é muito bom mesmo...
- No momento até gostaria de ter escrito aquele texto...
- E aquele de que o amor chega quando a gente menos espera... como é o nome... “A Impontualidade do Amor”, isso.
- Não... não é meu. Mas devo escrever um sobre a impontualidade dos aviões e suas consequências.
- Hein? Ah, esquece. Antes que eu vá embora, me dá um autógrafo?
- Seria um prazer.
- Nossa, que bacana. Ué, seu nome não é com Z?

E então Luis Fernando Verissimo corou mas, definitivamente, não foi de timidez.

As cobras - Luis Fernando Verissimo (juro!)

Engraçada Pobreza


Começou meio sem querer. Vivia numa eterna situação preta. Pindaíba era pouco para as tarifas do cheque especial, do cartão e das faturas que ainda chegariam. Mas mesmo assim não saía do bar. Era um raciocínio lógico: cinco reais de cerveja não iriam deixá-lo mais pobre. Ele só esquecia de ir juntando esses cinco reais até o final do mês: de cinqüenta a setenta reais contabilizados em álcool. Mas não queria fazer essas contas, pois o bar era seu único momento de verdadeira descontração. Lá ele podia contar sobre sua vida miserável e todos riam dele. Não, não riam da sua pobreza. Era o modo como ele contava, o peculiar jeitinho de falar sobre a falta de dinheiro e as situações desagradáveis que ela proporciona. Como por exemplo, no dia em que pediu dinheiro emprestado a um amigo e, quando este cobrou, não tinha como pagar, claro. Perdeu o amigo. Seria trágico se não fosse cômico nas palavras desse comediante de boteco.

Ele ficou conhecido pelo dom de fazer graça da própria pobreza. Suas histórias corriam o bairro. O único inconveniente era, devido à sua fama, o fato de não poder “pendurar” mais em lugar algum. Mas ele não se importava. Principalmente porque os amigos vivam dizendo que ele deveria tentar o estrelato. Jô Soares, Chico Anísio, Renato Aragão. Todos ficavam insossos perto das histórias de aperto financeiro dele. Realmente ele tinha um talento. Convenceu-se e procurou a estação de TV local, o jornal local, tudo local, porque não tinha dinheiro para viajar. Não deu em nada. Pensava em desistir quando um outro freqüentador assíduo do boteco contou que tinha um primo poeta. O primo também era pobre, mas conhecia as pessoas certas. Ele trocou telefone e mais tarde figurinhas com o primo. Conseguiu ir parar no jornal. Não bastou muito a televisão o descobriu no jornal e o trouxe para a luz da popularidade.

Já era nacionalmente famoso. Tinha programa na TV e no rádio, coluna em jornal e revista. Tinha um futuro brilhante. Mas, inexplicavelmente a qualidade de seus trabalhos começou a cair muito rápido. Já não era tão engraçado. Especulava-se tudo nas revistas de fofoca: depressão, falsificação de autoria, anorexia, crise de personalidade e até AIDS. Ele não se manifestava. Até porque só se falava disso nas críticas indiretas, ninguém nunca o perguntou pessoalmente. E se perguntasse, ele não responderia. Tratava-se de algo muito pior do que todos os “achismos” da mídia. Era um segredo terrível. A única solução foi se aposentar vergonhosamente. Anos depois, no leito de morte, quando quem foi famoso um dia é lembrado novamente, fez a confissão tão esperada, principalmente pelos ex-companheiros de copo: ganhara dinheiro, muito dinheiro.

Descoberta


Descobri a razão da solidão e angústia da humanidade. São aquelas malditas placas que ficam nos parquinhos da cidade: "Proibido para maiores de 12 anos".